Houve uma época – juro que houve – em que em que existia uma
beleza interior, ainda que não exposta. Brilhava nos olhos uma inocência linda
de se ver, ainda que demonstrasse pura malandragem. Existia amor dentro do
peito, ainda que a frieza acobertasse. Existia uma pureza nas palavras, ainda
que a grosseria espantasse. Existia você, ainda que só eu enxergasse. E agora o
que restou desse ser tomado pela perdição, estagnado pelo ócio, difamado pela
situação e temido pela maldade? Tornou-se o que eu não queria. Um ser digno de
dó. Dó de ver se transformar diante meus olhos, totalmente fora do meu
controle. E assim na minha impotência, sinto um pequeno – pequeno mesmo – pesar
ao perceber que aquele pequeno monstro que existia escondido em você, aquele
que eu tinha esperanças que não viesse a crescer, foi alimentado dia após dia
por você até se tornar grande, forte, até conseguir tomar conta de todo seu
ser.
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