Os tempos eram outros. Saiam da inercia, gritavam,
escandalizavam, manifestavam, vandalizavam, protestavam. Em 25 anos era a
primeira vez que via de perto tanta militância. Era tudo muito lindo e
comovente, porém disperso. Sem contar os de má fé, perdidos, rebeldes sem causa,
oportunistas. Mas ainda assim, continuava impressionada e emocionada. Tantos propósitos ao mesmo tempo e tantas
personalidades diferentes que tudo se difundia em meio à multidão. Mas como
não? A verdade é que entre Felicianos e mensaleiros, entre 0,20 centavos e
milhões pelo futebol, existem muitas outras indignações. O gigante acordara,
segundo eles, e acordara faminto e ao mesmo tempo empanzinado, louco para
vomitar tudo que não digeria há décadas. Vontade não me faltava, apenas
oportunidade. Vontade de lutar de verdade por algo que realmente vale a pena,
correr riscos que no calor e na adrenalina nem se destacam, nem se percebe. Quebrava
então outro paradigma no qual fomos criados, o de buscar proteção e apoio nos
que podiam lhe proporcionar segurança: a polícia. Era quase como contar a uma
criança que papai Noel não existe. Tudo bem, isso já não era mais surpresa, mas
esperança é última que morre. E agora? Quem iria nos defender? Nós mesmos? Sim,
cada um por si e Deus por nós. E até que ponto se pode acreditar que tudo não
passa de uma jogada? Algo pensado, planejado. Sem contar na mídia facista,
sensacionalista e corrompida. Pensar assim seria mergulhar de cabeça na teoria
da conspiração? Talvez sim, talvez não. Mas vale dizer que organização é tudo,
até mesmo para lutar, exigir, cobrar. Aliás, cobrar que façam seu papel com
justiça, democraticamente, só cabe aos que cumprem sua parte honestamente,
corretamente. E em meio aos novos tempos, cá estava eu, no auge da ansiedade,
no clima de revolução e ao mesmo tempo estagnada e sem direção. Mas o
importante é que lá estavam eles, na busca, cheios de conduta. E assim cantando
“verás que um filho teu não foge à luta”.
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