sábado, 17 de agosto de 2019

Pião

A história se repete 

Me sinto às voltas
Feito um pião

Imóvel
Sem rumo
Riscando, rodopiando
Furando  o chão

A verdadeira saída para a inenarrável confusão que se alocou na minha rotina
parece inalcançável
Uma vez que 
o gozo ainda se fizer
Intransmutável

domingo, 26 de maio de 2019

Corpos

Havia um movimento
Nossos corpos dançavam conectados ainda que no distanciamento
Era como se eu pudesse sentir a retração de cada músculo do seu corpo
Seguindo descompassadamente junto com o meu
Era uma dança nas nuvens, de ar rarefeito
Onde o diálogo se manteve através dos olhares não vistos, do toque contido, da barreira invisível visivelmente imposta por tudo e todos

Havia um sentimento
Nossos peitos se enchiam de ar ainda que num suspiro desesperado
Era como se no concreto sólido daquelas paredes quiséssemos só eu e você
Desconectando do tempo espaço que nos prendeu às imposições que nos colocamos

Haviam corpos
Que se atraem e se repelem
E conversam
Numa dança transcendental de conexão
Alimentada pela fantasia esquiva de um desejo furado
E um gozo de aflição

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Sem norte

A minha impaciência tem nome
O deslocamento contínuo do meu corpo
Os dedos enfumaçados
E o resto todo

Teu medo se transformou em meu
No mistério da porta entreaberta
No desejo confuso do sim
Do não

Essas meias palavras ditas
Na contradição dos dias
Frases inteiras
Abismo à vista

E o desejo descomunal
Em perder-me no agora
De forma transcendental
Troco passos
Sento em bares
Espero, anseio a chegada
E tremo abalada

Teu gosto ficou
Impregnou
O som rouco da sua voz
E o jeito louco do seu olhar

Onde é que fui parar?
Como é que faço pra voltar?
Trancada pelos teus dentes fortes
Me entrego
Perdida
Sem norte

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Maltrapilho


Se já me dei todas as respostas
E constatei que ter você
Não se enquadra em nenhuma aposta
Que mais quero eu, a mercê
Nessa vida de lama e delírios
Infundada em sonhos não vividos
Debruçada em cacos, maltrapilho
Chorando por migalhas
Desse seu amor mal resolvido



Eu quero te matar
Te apagar
Te arrancar
Te vomitar
Te espedaçar
Cuspir cada pedaço seu de dentro de mim

Eu quero te abraçar
Te apertar
Te beijar
Te cheirar
Te fazer gozar
Sentir cada pedaço seu dentro de mim 

sábado, 19 de dezembro de 2015

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Imagem

Revendo desde a primeira foto
Era outro tempo
 Éramos outras nós
 Outros nós
E ficou
Congelado por frações de segundo
Tão rápido quanto a luz que entrou
Passou
Imagem
Congelamento do que morreu
Momento
Jaz
Da luz que entrar
Somos outras nós
Outros nós

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Vertigem

Constância nostálgica
Ainda assim faltará na fala
Não há
 Sentimento se sente
Que lugar é esse inexistente
Impalpável
Que na angustia persiste
Num desencaixe de vida
Gozo infindável do não ter
Zoom in, zoom out
Dentre efeitos
Vertigem
Autossabotagem

domingo, 31 de maio de 2015

Afo(a)ga

Estranhamento esquisito
Incapacidade da falta
Do lidar
Há o que não há
Vontade de suprir
Sem tamponar
Desejo que transborda
Inunda
Afoga

sábado, 2 de maio de 2015

Erro contínuo

O silêncio falou
Bastou
Explicou
O corpo sentiu
A mão trêmula
Gelou
 (Des)ilusão
(Des)construção
Uma a mais
“Mas não tem revolta não”

domingo, 26 de abril de 2015

Pré-visto

Não bastasse um oceano
Há mais
Invisível
Unha que crava
A pele que descasca
O dedo que não para
Sentido que não faz
Num grito contido
[PÁRA]
Era previsto
“Vai ser assim comigo?”

quinta-feira, 9 de abril de 2015

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Enganounão


Talvez eu tenha me enganado
ou não
Talvez tenham me enganado
ou não
Talvez seja um grande engano
ou não
Talvez sejamos um engano
ou não

sábado, 28 de março de 2015

terça-feira, 17 de março de 2015

Ans i[e]dade


Um ponto cético
Uma certa idade
Um peso crítico
Ansiedade

Passado permanente
Desespero futuro
Ausência de presente
Cego, obscuro

Corpo que trava
Idéia que se esvai
Mente escrava
Dorso que cai

sábado, 7 de março de 2015

Inquietação


Dorme que já é tempo

Respeite o corpo alerta
E na respiração ofegante
Que de alma se desperta
Afague o sopro de vento cortante

Esquece no tempo a lembrança
Desfaz em ato venenoso
Do peito farto de esperança
Esse tardio afeto odioso

Dorme que já é tempo

E o que há de novo
Esfera que enjaula a presa
Nem sempre vale o gozo
Dissecando em vagareza

Cautela no meio de encanto
Andor leve de quase parar
Dessas doces mãos de acalanto
Nunca se sabe o que esperar

Dorme que já é tempo


quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Berro


E quando a histeria faz com que tudo não caiba dentro
E nada vá pra fora
Implodo?
Exponho-me a vícios
Inútil
É mais, h(á) mais
Injusto
Tão justo que não cabe
Pontos de vista diversos
Anexos
Emaranhados complexos
Instaura a dor
Exala o rancor
Poros
Ódio de amor

sábado, 3 de janeiro de 2015


Numa imensidão
uns podem voar, outros podem nadar
A mim resta caminhar
Resta caminho
Andar
              sem nadar, sem voar

Resta [re]inventar
Construção

             nadar, voar

sábado, 13 de dezembro de 2014

A que(m) será que se destina?


Escrevo em contradição.
Quero escrever tanta coisa, mas sinto ser tudo em vão. Sinto a palavra perder o valor. Não consigo nem organizar corretamente os pontos e vírgulas, se é prosa ou poesia, ou sei lá o que.
Se eu fechar os olhos sinto a confusão, o emaranhado que parece esmagar tudo por dentro, é coisa demais. Definitivamente, é coisa demais. E a vontade sempre é uma só: parar. Parar enquanto tudo corre dentro de mim. Parar e assistir a loucura de fora pra dentro. Olhei várias vezes, durante vários dias pra essa simulação de folha de papel em branco, queria escrever, mas só olhava, congelada.
Dizem que é crise existencial (eu questionei mesmo minha existência), que Nietzsche sofreu com isso, que é normal quando se sai da alienação e entra pra vida dos questionamentos, que é loucura, que é sair da zona de conforto, que é ser humano. Há também quem banalize ou simplifique. As vezes isso me irrita muito. Aliás muita coisa anda me irritando muito. Calada. As vezes sim as vezes não.
Sinceramente, não sei classificar. E nem preciso. Não sei explicar. E nem preciso. Mas quero, sigo tentando. Sei que é grande e complexo. Sei do que ando sentindo e sofrendo, assim como sei do que ando aprendendo e vivendo. Sei das trocas. Sei das dores. Minhas.
Mas ando travada, sim. Bloqueada. Há muito o que pensar antes de falar um “A”, ou mexer um músculo, ou direcionar um olhar. Meu dedo que a pouco disparava sem parar, já faz dias que deixou de trabalhar. Ainda bem.
Embora eu ainda ache essa escrita um lixo, aliviou um pouco. Só ainda não sei dizer o motivo de tornar isso público. Vai ver é pra alimentar o ego. O mais provável é que seja pra fazer-me entender minimamente a algumas pessoas que eu julgo necessárias. Principalmente eu.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

NÃO/SOU

Não sou Foucault
Não sou Lacan, nem Laplanche, nem Freud
Não sou de saber muito de política
Não sei muito de teoria queer nem de Judith Butler
Não sou uma ativista fervorosa
Não aprendi tudo que você aprendeu
Não sei inglês nem francês
Não vi isso ou aquilo
Não conheço todas as músicas do Caetano
Não li um décimo dos livros que você leu
Não sou muito de ler
Não digo “ain” nem “massa”
Não estudo psicologia, nem social nem clínica
Não conheço esse filme
Não entendo tudo que você diz

Eu sou de músicas, várias, de quase todos os tipos, mesmo que não escute muito
Eu sou de cantar, tocar
Eu sou de escrever, desenhar
Eu sou de fotografar, observar
Eu sou de Exú, de Yemanjá
Eu sou de aprender, de conversar, de falar
Eu sou de ouvir
Eu sou de mudar
Eu sou de pessoas, independente de “raça”, cor, orientação sexual, altura, classse, etc
Eu sou de ajudar
Eu sou de amar
Eu sou de dançar
Eu sou de beijar, de namorar, de acarinhar, de agradar, de surpreender
Eu sou romântica brega broxante
Eu sou de brincar, de rir, de fazer palhaçada
Eu sou de sonhar, de imaginar
Eu sou de jogar bola, de andar de Kart
Eu sou de beber, de fumar
Eu sou de pensar
Eu sou de mim
Eu sou de você
Eu sou de nós
Eu sou assim
Eu sou Eu